Voltei à casa velha à procura do misterioso amiguinho

NEM ESCOMBROS SINALIZAM QUE ALI EXISTIU UMA RESIDÊNCIA EM FORMATO RETANGULAR. TAMPOUCO RECONHECI ALGUÉM DA VIZINHANÇA; MÁGICA DO TEMPO...

Montes Claros-MG – Numa espiadela pela janela da infância, fiz questão de visitar a antiga casa em que moramos próximo à Praça João Catone. Quase um resgate de tempos deliciosos…

Precocemente a essa visita, senti-me extasiado em poder resgatar alguma das experiências felizes (ou nem tanto) que vivenciei naquelas paredes toscas. Elas circundavam aleatoriamente o sombrio espaço quadrado do meu antigo ambiente familiar.

Por que o Sol nunca entrava ali?

A Casa Velha, conforme a denominei ainda na fase infantil, tornou-se assim referência insubstituível para os tempos em que pensei ter sido muito feliz, mas também solitário.

Como ainda não estudava, ficava à mercê de extrema solidão quando meu irmão mais velho saía à tarde para ir à escola, horário em que minha mãe matraqueava a máquina de costura na sala de estar.

Bem egoísta, o mano deixava um emaranhado de nós nos barbantes dos seus carrinhos para evitar que brincasse com ele. E avisava:

– Desenhei cada nó. Se você mexer num desses carrinhos, vai ver comigo!

Nem preciso dizer que ficava horas e horas tentando memorizar aqueles arranjos, tentado a brincar e deixar tudo do mesmo jeitinho.

E se não conseguisse? Meu irmão poderia me bater…

Um detalhe que sempre achava interessante era observar a “mágica” das paredes que não encontravam o teto, emoldurado em formato triangular. Como era bom escutar o barulho da chuva!

Foi numa dessas tardes tediosas que encontrei Luizinho, menino ruivo que brincava nos fundos do quintal. Entrou ali como?!

Sem se incomodar com meu olhar curioso, tampouco virando as costas para falar comigo, Luizinho (nome que informou depois) disse que nosso quintal tinha encantamento especial.

Deduzi, mesmo na condição de criança inocente, que tais palavras reforçavam o espírito de fantasia da brincadeira que ele planejara.

A partir desse dia, nunca mais fiquei sem um amiguinho para brincar.

Intrigada pela calmaria aparente que eu demonstrava, ao contrário das birras demonstradas nos dias de solidão, minha mãe largava suas costuras e vinha questionar:

– Joãozinho!!! Não está aprontando, está?

Mal dizia isso, ela surgia no alto da escadinha da cozinha, checando melhor se estava tudo bem comigo.

Esperto, Luizinho já havia me avisado antes mesmo de eu ouvir a pergunta mascarada de reprimenda:

– Sua mãe está vindo aí, fique esperto. Quer verificar se você está bem, ou se não está aprontando.  Faz isso para o seu bem, não se preocupe@ – disse tranquilizador.

Nessa época, eu nem estranhei tais “adivinhações” do meu amiguinho.

Tempos depois, de tanto ouvir eu falar de Luizinho, minha mãe resolveu investigar quem era esse amiguinho esquivo. Ela jamais conseguira ver o ruivinho dentro da velha casa.

– Ah, mãe, ele se escondeu debaixo da cama. Tem vergonha da senhora, sabia?

Luizinho, soube minha mãe, morava a menos de 50 metros da nossa velha casa, mas faleceu aos cinco anos de meningite. A descrição que fiz do menino batia com as informações da vizinhança.

Não deixei de levar um susto ao ver a foto do meu amiguinho e saber que ele já tinha partido há anos.

Depois disso, nunca mais Luizinho surgiu no quintal e/ou no quintal para brincar comigo. Sinto saudades dele até hoje…

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Eis que finalmente cheguei ao início da minha querida rua, e, infelizmente, não vi nada que lembrasse meus tempos de infância. As casas que guardava na memória já não existiam, substituídas por imóveis mais modernos.

Não me importaria com isso se também a casa velha não tivesse sido deletada no decorrer célere dos anos; e foram tantos!

Saí dali sinceramente triste, quedado pela convicção de que parte da minha existência tinha sido decapitada sem piedade.

Daí uma certeza, que agora cultuo firmemente:

VIVA O SEU MELHOR MOMENTO HOJE, POIS O FUTURO, DE FATO, “A DEUS PERTENCE.”

DIVIRTA-SE DE FORMA SAUDÁVEL, E NÃO INTERROMPA SEU APRENDIZADO DE VIVA: TUDO IRÁ CONTRIBUIR PARA QUE VOCÊ SE SINTA MUITÍSSIMO FELIZ!

Por João Carlos de Queiroz, jornalista

 

 

 

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