Jamais olhe para trás se o cumprimentarem num lugar deserto…

Os espíritas afirmam que anjos da guarda nos acompanham diuturnamente, além de obsessores. Até passar por experiência bem sinistra, também duvidava disso...

Faz bem um punhado de anos, eis que fui flagrado por algo supostamente invisível, certamente à minha espreita num campo de futebol abandonado.

Isso aconteceu em Cuiabá-MT, mais precisamente no bairro Cidade Alta, por onde resolvi circular aleatoriamente à noite, disposto a quebrar o longo jejum de exercício das pernas.

Ao dar início à referida caminhada noturna, jamais pensei que passaria por tamanho susto…

Primeiro, percorri sem pressa parte da Avenida Miguel Sutil, a famosa perimetral – avenida que divide a região da Grande Cidade Alta com os bairros do lado oposto: Coophamil, Novo Terceiro, Cidade Verde, etc…

No contorno do trevo que, até então, ostentava uma bola gigantesca de futebol, simbolizando a Copa de 2014, resolvi ingressei pelas laterais da  Avenida Miguel Sutil.

Nem escolhi, a princípio, qual das ruas abertas me levaria à Cidade  Alta, bairro situado num plano superior. O importante era esticar as pernas ao máximo…

Arfante, pois de há muito – conforme citei – não fazia maratona pedestre, vi-me andando numa rua desértica, apesar de o horário ser relativamente cedo, antes das 22h.

Um silêncio constrangedor fez com que engolisse em seco, por várias vezes.

Ainda recordo do ruído cadenciado dos meus passos no asfalto empoeirado…

Não apareceu viv’a alma em todo esse percurso. Quase visualizei um cemitério não oficial naquela área, banindo impressões tão desconexas do que era apenas um passeio noturno.

Acelerei, consequentemente, mais os passos, lamentando não ter trazido a garrafinha d’água.

Onde saciaria aquela sede repentina?

Nesse matutar aleatório, veio à mente uma rua sem saída situada mais adiante, sem ligação com o bairro vizinho; rua que desembocava num campo de futebol abandonado.

Dali, também sabia, seria um pulo até à Cidade Alta, onde poderia encontrar lanchonetes abertas e água!

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De fato, em minutos, lá estava o citado campinho abandonado, mas com cerca de arame farpado, infelizmente.

Da última vez que passei por ali, inexistia divisória.

Enfim: a cerca foi afixada e assim não pensei duas vezes: quase rastejando, consegui passar pelo inusitado obstáculo, respirando aliviado ao ver o campo desértico totalmente à minha disposição.

Mal iniciei os passos para atravessá-lo, senti uma sensação desconfortável se apossar do meu espírito.

Isso se refletiu numa pressa intempestiva, automática, de sair dali, como se fosse algo que representasse minha salvação.

Mas… salvação de quê?!

Já no centro do que antes foi um gramado retilíneo, transformado em mato ralo pelos anos de desuso, foquei meu destino nas luzes dos postes à frente, a uns 100 metros.

Por ser noite, e escuro, não consegui ver se havia cerca de arame farpado do outro lado.

O chato de tudo foi a persistência daquela sensação de não estar só… Nem meus passos consegui ouvir, estranhamente aveludados pela mata que substituiu o antigo gramado.

– Oi, João!

Escutei esse cumprimento com calafrios no centro do velho campo, quase sem acreditar: quem estaria à minha retaguarda num lugar praticamente abandonado?

Nem preciso dizer que o “automático” dos passos ganhou imediata aceleração, a ponto de ir saltando aos pulos pelo restante do campo.

Graças a Deus, não tinha nenhuma cerca oposta…

Que alívio estar agora numa rua iluminada!

Ainda vi uns moradores conversando ao longo da via, e os cumprimentei bem feliz por não estar sozinho.

Meu percurso de volta, decidi, abortaria aquele atalho do campinho de futebol. Preferível caminhar mais um pouco…

Ah: apesar de breve, e anônimo, nunca esqueci aquele “Oi, João!” Peço a Deus para que tal experiência não seja reprisada em sonhos!

João Carlos de Queiroz, jornalista

 

 

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