MONTES CLAROS – MG – 1970 – Quando estudava no novo prédio da Escola Estadual Normal, na Avenida Mestra Fininha, costumava frequentar o cineminha noturno oferecido pelo educandário aos alunos e respectivos pais. As projeções tinham lugar no auditório da escola, já infestado por forte odor de mofo, pois era pouco utilizado. Os filmes exibidos ali prendiam as atenções de todos, principalmente os de pirataria.
Numa dessas noites, após anúncio de filme gratuito, pedalei do bairro Edgar Pereira até à escola, o que implicava em vários quilômetros. Era uma noite fria, e levei blusão, pois temia enfrentar frio intenso no retorno, como de fato aconteceu.
O filme, em preto e branco, mais uma vez envolveu piratas invadindo embarcações e matando muita gente. Vez ou outra, tive que levantar os pés e colocá-los nas costas da cadeira frontal, pois havia um sem número de ratos circulando à vontade pelo auditório.
A gritaria do pessoal deve tê-los assustados, e assim ficaram num zigue-zague frenético pelo salão escuro. Ouvi vários gritos de mulheres, e deduzi que não se tratava de emoções pelas cenas exibidas, mas, sim, pelo esfregar intruso de ratos!
Ao final do filme, depois de observar o projecionista Édson acomodar os projetores ICE nas caixas, recolhendo o telão, peguei a velha bicicleta Hélbia e saí veloz da escola, estranhando a mudança repentina de clima: aquele friozinho inicial da noite se transformara numa neblina gelada, associada a nevoeiro crescente. Mal conseguia ver algo além de 50 metros à frente…
Desci pela Avenida Mestra Fininha sentindo o corpo gelar mais e mais. Findo a descida, pedalei forte rumo à Avenida Coronel Prates, tentando dar calor ao corpo semi-rígido pela queda brusca de temperatura.
Tudo parecia ir bem até que entrei pela Rua Cel. Celestino rumo à ponte sobre o Rio Vieira, de acesso à Vila Brasília. Por ali, sabia, o percurso seria mais rápido, e pedalei ainda mais rápido para chegar logo. Não vi viv’alma durante esse deslocamento, como se a cidade inteira dormitasse de forma estranha…
Transposta a ponte, senti o bafo carniceiro do esgoto armazenado nas águas escuras do manancial, prendendo provisoriamente a respiração. Ofegante, fui obrigado a buscar oxigêncio logo além, quando percebi que não estava sozinho nessa marcha quase madrugadora…
Por mais que pedalasse rápido, algo, ou alguém ao meu lado, parecia competi comigo. Senti, inclusive, as rangidas de algo metálico me acompanhando, possivelmente uma bicicleta fantasma. O barulho do cascalho sendo cortado por rodas invisíveis foi outra coisa que pude perceber nesse peregrinar de aberta fuga contra o desconhecido.
Mentalmente, pedi a Santo Antônio que me protegesse, não permitindo que nada de mal me atingisse. Uma intuição misteriosa indicou que mudasse o itinerário, adentrando pela área central da Vila Brasília, ao invés de seguir pela avenida lateral.
Antes de empreender a mudança de rumo, senti que a bicicleta estava sendo possuída por força invisível, praticamente sendo obrigada a manter o percurso que empreendia. Foi uma puxada forte, idêntica a um imã poderoso. Fiz novo pedido mental a Santo Antônio, e a força desse espectro foi rompida, permitindo que virasse à direita. Escutei nitidamente uma espécie de grunhido feroz…
Também as ruas internas da Vila Brasília parecia mortas pela noite gelada, e percorri todas sem deter a marcha acelerada que tentava manter desde à ponte. Finalmente, desemboquei no campo de terra do bairro, ansioso por sair daquele lugar. Por instantes, temi que a bicicleta quebrasse a corrente, ou travasse o freio (tambor central da roda traseira). Tudo deu certo, felizmente…
###
Rememorando esse susto, fico pensando em quem – ou o quê – esteve me acompanhando tão insistentemente por várias ruas sonolentas. Certamente, é uma suposição, pode ter tentando alquebrar a quietude mórbida provocada pelo frio e cerração incômoda. Naquele percurso rápido de desespero, também os imóveis da cidade se transformaram em espectros atentos às minhas reações de medo…
Por João Carlos de Queiroz, jornalista
Mtb 381.18-MT
*Direitos Autorais Reservados