Quando o frio mata e muitos {ainda} aplaudem…

Segundo declaração realista, o frio só é aconchegante para quem desfruta do conforto de um lar. Vá dizer o contrário para as pessoas em situação de rua...

Não há nenhuma beleza no frio nem na fome: ambos matam impiedosamente seres humanos e animais. Só que os políticos, principalmente, insistem em alardear ações sociais incapazes de resolver os dilemas das classes paupérrimas do país. Por sinal, sempre em crescimento vertiginoso.

É importante para os integrantes da classe política propagar cândida imagem de anjo, postura essencial à continuidade de projetos abastados, de mordomias legais. Caso contrário, serão refutados no teste das urnas. E com mais uma eleição se aproximando…

Portanto, as campanhas caridosas {oficiais e de voluntários} não devem se restringir apenas aos meses de inverno e final de ano, época natalina: as intempéries da natureza agem sem tréguas durante todo o período anual, sem respeitar datas…

Senão, vejamos…

*As baixas temperaturas verificadas nos últimos dias em todo o país – fato que muita gente aplaude como “bênção” -, são aprazíveis somente para quem dispõe de confortável teto quente, sobre si;

*Obviamente, lares aconchegantes dispõem de poder para desmantelar a real imagem de vilão do frio, transformando-o em “camarada”;

*Dentro desses lares, a lareira e um generoso chocolate fazem brinde festivo à gélida temperatura externa;

*Já nas calçadas da vida, mendigos tremulam esperanças de mais uma noite sobrevivente. Nem todos conseguem isso…

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Conforme os noticiários matutinos repicam com certa assiduidade, seja nas capitais ou em cidades de porte médio, há sempre muito trabalho funerário nas vias públicas, logo nas primeiras horas do dia: corpos enrijecidos, clicados em semblantes tristes, indicam que aquela batalha contra o frio foi perdida…

Dali, sem referências documentais ou responsáveis legais, os cadáveres anônimos seguem para os tanques de formol das universidades de medicina, tornando-se objeto de estudos.

Arthur é um caso diferenciado…

Não chega a ser necessariamente o caso do mendigo Arthur, se podemos denominá-lo dessa forma, pois nem ele mesmo sabe ser indigente: Arthur tem família (que simplesmente o abandonou) e até uma casa. Porém, portador de transtorno mental, ignora isso.

Muitos se lembram da época em que Arthur frequentava festas nos clubes da capital mato-grossense, tempos em que era uma pessoa afável, geralmente bem vestida. Chegou a usar ternos de linha por longo período.

A eclosão do transtorno mental, apontam, foi em decorrência dos estudos. Daí em diante, Arthur deixou de reconhecer antigos amigos e parentes. Providencialmente, todos se afastaram…

Vizinhos dessa via-sacra diária de Arthur dizem ter tentado algum acolhimento médico, buscando ajuda do município. Infelizmente, nada disso resultou em resultado prático na vida do infeliz rapaz.

Só Deus sabe até quando Arthur resistirá a essa penitência pelas ruas de Cuiabá, com insistente plantão nas lixeiras da Avenida Senador Metelo.

João Carlos de Queiroz, editor.

 

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