“Redação sempre foi o meu maior pavor; simplesmente estampa um ‘branco total’ nos concursos…”

O título acima explica o sufoco dos concurseiros acostumados com matemática, química, conhecimentos gerais, etc. Qual é o mistério da arte de escrever? Ou existe alguma arte nisso? Tenho tentado responder essa questão aos amigos que sempre me questionam sobre tal assunto.

Nas conversas com amigos, geralmente sou apresentado como jornalista, “o cara que escreve pacas”.  Grande exagero. Mesmo porque escrevo numa linguagem nitidamente coloquial, tipo um papo descompromissado de amigos.

Portanto, nunca entendi direito qual é o grande dilema das pessoas para lidar com palavras e construir textos lógicos, capazes de serem entendidos logo à primeira vista, sem metáforas complexas.

Tenho frisado o seguinte: “Escrever é mais fácil do que a maioria imagina. Basta copiar num computador, ou mesmo numa simples folha, usando lápis ou caneta, aquilo que a mente concebe”.

Para quem dei tais conselhos, a retórica tem sido quase uniforme: “Pra você é fácil; não para os outros”.

Inútil discorrer acerca da banalidade de situações que geram crônicas interessantes, ou “descarregos” pretensiosamente literários.

Vou  tentar explicar: qualquer coisa é notícia, e notícias, sejam quais forem,  sintetizam histórias. Algumas eclodem formatos interessantes, enquanto outras se perdem no anonimato do desinteresse.

Há aquelas que sequer são percebidas na sua insignificância, e é mais fácil nem perder tempo escrevendo asneiras…

Recordo que, quando editor de suplemento de Agropecuária no jornal cuiabano Folha do Estado, cheguei à redação meio sem assunto para a manchete do caderno. As demais páginas já estavam prontas, lotadas de releases das assessorias. Mas eu sempre gostava de redigir a primeira página, estampando algo interessante.

Foi nesse breve namoro à tela vazia do computador que recordei ter feito algumas fotos num sítio de amigos, no distrito de Nossa Senhora da Guia. Ali residia um casal de idosos quase centenários, pais de Lino, amigo também adentrado em anos. Eu o levava sempre lá, e aproveitava para conversar com os encantadores velhinhos.

Como um amor resiste a tantos anos? – por várias vezes me questionei.

Pois bem: joguei as fotos no computador e dei início à narrativa desse convívio harmonioso da terceira idade, laconicamente aguardando o chamado de Deus.

Elaborei,assim, um texto pra lá de simples, narrativo, sem a mínima conotação literária.

Em questão de minutos, menos de 30, acho, a manchete do suplemento estava pronta.

Intimamente, desvalorizei meu próprio trabalho: “Vai esse texto mesmo. É o que tem pra hoje”. As impressoras, na sequência, rodaram milhares de exemplares…

Para minha surpresa, dois dias depois comecei a receber visitas de estudantes de jornalismo da UFMT e Univag, desejosos de me conhecer.

“O senhor é o autor dessa obra?”- questionou uma universitária ao exibir a manchete dos velhinhos do distrito da Guia.

Pensei que fosse gozação, mas a menina – olhos fixos nos meus – aguardava uma resposta. Parecia ser sério…

“Obra?!’ – rebati divertido, levemente confuso.

Por duas semanas, mais visitas aconteceram, inclusive com acompanhamento de professores. E o motivo se repetia: todos desejavam que falasse sobre como me inspirei para “construir aquela bela história”  – QUANDO A VELHICE CHEGA NO CAMPO.

Não deixei de comentar sequencialmente nessas visitas, fitando um a um, que redigi um texto quase grotesco, feito às pressas para fechar o caderno.

“Tinha fotos deles e conheço a família há anos. Daí saiu essa história”, expliquei.

Um estudante fez uma pergunta inusitada ao escutar meus argumentos:

“Quero ser jornalista, senhor. Será que consigo chegar ao seu nível?”

Até tentei me recompor, mas foi difícil segurar uma boa risada. O jovem não entendeu; creio que o desapontei…

Só pra vocês não roerem o dedão do pé de curiosidade, uma pergunta estalou sem cerimônias na minha mente ao escutar a indagação daquele jovem: “Que nível?”

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Esse relato sintetiza parte dos desdobramentos que a escrita impõe nas pessoas. O citado desdobramento ocorre por causa de um fenômeno que ainda não consigo explicar: ao iniciar um texto aleatório, que não seja notícia, fatos, a tendência é de viajarmos por caminhos incógnitos, inéditos ao autor.

Enquanto escrevemos, a mente se dispersa a bel-prazer, tomando rumos diferenciados do que possamos ter planejado inicialmente.

Esse descontrole literário termina induzindo a maior gás no teclado, a fim de termos noção real do que está em construção pelos nossos dedos e mente. Tornamo-nos sedentos da própria história em curso.

Por ora, paro por aqui, pois a mencionada indução desobediente do cérebro já me distanciou do propósito inicialmente traçado no cabeçalho: não há nenhum bicho de sete-cabeças intitulado de redação.

João Carlos de Queiroz, jornalista Mtb 381.18-MT

 

 

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