Paulo Pimenta: ex-roceiro matuto de Minas Gerais acumula graduações acadêmicas e é respeitado internacionalmente

O primo-irmão Paulo Roberto Pimenta é hoje um senhor acadêmico, com formação em áreas distintas (Física, Química, Psicologia, etc. e tal...). Enumerar suas graduações universitárias emoldura uma lista longa

Por João Carlos de Queiroz – Já faz um punhado de anos, escrevi uma crônica intitulada “Acadêmicos Roceiros” no jornal “Folha do Estado”, em Cuiabá-MT, matutino extinto há anos. Na época, eu editava um suplemento agropecuário semanal, reservando espaço considerável para distintas publicações literárias (“Causos” da Roça”).

O texto “Acadêmicos Roceiros”  foi um deles, clara alusão à vitória universitária obtida pelos primos Paulo Roberto e Ronaldo Pimenta na cidade grande (São Paulo e Belo Horizonte). Antes, eles viviam quase reclusos, de forma genuinamente matuta, em Pires e Albuquerque, ex-distrito bocaiuvense, emancipado há anos.

Esses dois irmãos são vencedores em potencial. Em São Paulo, Ronaldo ingressou na Escola Técnica Federal, dali saindo com formação em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Santo André. Já o brincalhão Paulo Roberto, depois de perambular pelas ruas de Belo Horizonte-MG, logrou obter graduação em duas universidades: a UFMG e Católica. A partir daí, o humilde garoto da roça começou seu dominó de diplomas universitários…

“Você pode conseguir o que quiser na vida. Basta ter foco objetivo e determinação de perseguir seus sonhos”, diz Paulo

Para quem conheceu os primos adolescentes quando viviam no aconchegante sítio da família, é realmente surpreendente constatar a mudança social e profissional que implementaram em suas vidas. A crônica “Acadêmicos Roceiros”, portanto, surgiu mais em forma de homenagem ao percurso brilhante empreendido pela dupla de caipiras pés rachados em duas imponentes capitais.

Um detalhe interessante é que, independente das muitas graduações obtidas, ambos não perderam o jeitão mineiro do povo da roça: ainda conversam arrastado e meio cantado, entremeando gestos estudados e não raramente desconfiados, de vagar indagativo aos interlocutores. Ao andar, desenvolvem passadas gingadas, como se portassem molas nas pernas. Herança imortal dos bons momentos vivenciados no longínquo passado entre o povoado de Pires e o sítio paterno, o que implicava em esforço extra para vencer os quilômetros do percurso…

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Paulo Roberto sempre se mostrou mais esperto do que Ronaldo, observei na convivência com os primos. Certa feita, quando andávamos pelo centro de Montes Claros-MG, Paulo sumiu de repente. Ficamos preocupados, pois ele não conhecia o lugar. Fomos descobri-lo depois comendo doces escondido numa esquina de armazém. O rápido “sumiço” do ardiloso primo foi para não repartir a guloseima…

No bairro Edgar Pereira, Paulo caiu dentro de um tambor de óleo ao abrir fuga de um bordel próximo à nossa casa. Menor de idade na época, ele pulou o muro intempestivamente ao presenciar a chegada da polícia. Só não imaginara haver um tambor com óleo queimado do outro lado. Paulo, que é moreno, saiu desse tambor que nem o Menino Saci…

Já em Pires, ele aprontava poucas e boas. Por não ter escova de dentes e nem tampouco pasta dental, a higiene bucal era feita à base de folhas de goiaba. Isso não impediu a implosão de cáries, evidentemente. Ainda recordo do jeito com que saiu gritando de dores pela várzea lateral ao curral do sítio. Fomos encontrá-lo chorando numa ribanceira distante. Tia Laura (que trabalhava com dentista) dispunha de remédio local para aliviar dores do tipo. O cheiro se assemelhava à creolina.

Também por não dispor de alicate de unha, Paulo cortava os seus “cascos” (unhas enormes, pretas, tortas) com canivete. Assisti essa decapitação penosa por várias vezes, para ele algo perfeitamente normal…

Ronaldo Pimenta, seu irmão, era mais avesso a conversas, preferindo escutar seu inseparável rádio de pilhas do que interagir conosco nas visitas ao sítio. Algo me dizia não ser um parente confiável, pois nunca nos olhava de frente. “Pessoas falsas é que agem assim”, dizia minha mãe.

Tanto não era confiável que adiantou o relógio quando deixamos o sítio sob neblina gelada. Chegamos ao terminal ferroviário de Pires pouco depois da meia-noite, acreditando que o dia estava prestes a raiar, horário em que embarcaríamos para Montes Claros. Um vaqueiro boêmio deu a má-notícia: “A noite mal começou, rapazes”. Foi uma noite insone de muito frio, açoitados por ventania implacável…

Ronaldo conseguia ainda a proeza de trocar pilhas do rádio na mais completa escuridão do quarto. Naquele tempo perdido, a “luz elétrica” do sítio se resumia a lamparinas à base de querosene. Bastava ficar próxima dela para implodir manchas pretas no rosto.

Ronaldo dormia e acordava fácil; parecia estar sempre antenado a algum provável susto alheio. Paulo, por sua vez, tinha sono mais pesado: nem tambores conseguiam acordá-lo…

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Uma vez, todos nos divertimos ao assistir uma barata passeando tranquilamente na sua boca. Paulo não percebeu a intrusão daquela asquerosa visita, e apenas mexeu levemente os lábios. Meu mano José Antônio disse que o inseto saboreava o açúcar da sobremesa do jantar…

Paulo também gostava de nos assombrar, anunciando que fantasmas vagavam pela casa a partir de certo horário. “Podem perguntar a Nem (seu irmão), caso duvidem. Ele já viu muita coisa no capãozinho e na porteira do sítio. E muitos {fantasmas} o acompanharam até aqui em casa…”

Esses relatos foram responsáveis por muitas de minhas noites insones no sítio dos tios Ambrósio e Nina. Para piorar, o cobertor espinhava bastante, ou não sei se era o colchão de palha. Mas não dava para espiar o que acontecia naquela escuridão do quarto. Ficava ainda pior quando Ronaldo desligava o rádio…

Na salinha do sítio – composta de pavimento irregular, chão batido -, a única acomodação à família e visitantes se resumia a um banco trôpego. Havia uma pequena mesa encardida pelo tempo, onde tia Nina acomodava lamparinas e revistas antigas. Ler algo ali à noite era muito difícil, visto que forçava as retinas a acompanhar o compasso perambulante da mortiça luz enfumaçada. Mesmo assim, debrucei-me interessado em gibis da época (Super-Homem, Tio Patinhas, Fantasma e Tarzan). As letras sambavam o tempo todo…

Além disso, chamava a atenção nessa mesinha a presença de uma pedra achatada, usada para sugar veneno de cobra, conforme Paulo. “Ela (pedra) cola na picada e só solta após sugar todo o veneno. Aí, você a coloca no leite e o veneno sai todo…”

Nunca soube se Paulo Roberto efetivamente usou esse método curandeiro da tal pedra suga-veneno para aliviar a picada que sofreu de um réptil jaracuçu, conhecido como “casco de burro”. A cobra cravou os dentes sem piedade na sua canela na beira do Rio Verde, o que quase levou o primo ao encontro de Deus. Teve que ser transferido às pressas para uma unidade hospitalar do município bocaiuvense. Se o socorro demorasse mais…

O tratamento do acidente com o réptil foi realmente longo, recordam as tias paternas, a ponto de ser usada uma colher para retirar a carne morta sobre o ferimento (parecia um abacate podre). A canela de Paulo assumiu formato raquítico e ficou marcada por cicatrizes imensas, mas ele se safou, voltando à militância na roça…

 

Com tantos percalços, transcorrido um arsenal de anos, o primo deixou o sítio dos pais e aportou esperançoso de mala e cuia em Belo Horizonte, cidade onde até passou fome nas primeiras aventuras de busca da independência pessoal.

Orgulhoso, Paulo não quis sequer procurar ajuda de familiares residentes na capital; sentimento altivo, que prevalece até hoje. Pela persistência de luta, o jovem roceiro pôde vencer todos os obstáculos financeiros e sociais que intervêm negativamente na vida de um ser humano, levando-o ao sucesso (após vencê-los) ou à desistência (fracasso).

Atualmente, Paulo vive com a renda proveniente do sólido patrimônio que adquiriu por conta de suas atividades profissionais em setores distintos nos quais está universitariamente habilitado. Já casou e não quis se aventurar novamente pelo âmbito do patrimônio, preferindo se dedicar às filhas e à netinha. “Também quero conhecer o restante do mundo. Já estive na Turquia, convivendo com os costumes muçulmanos. Pretendo me inteirar de outras culturas”, anuncia.

Por essas e outras está provado que não existe nada que possa impedir o homem de alcançar seus sonhos de forma concreta: o ex-sitiante Paulo Roberto é um senhor doutor em distintas áreas universitárias, mas afirma que continua implícito no sentimento roceiro. Vai até mais além: ao visitar esporadicamente o sítio da família no antigo povoado de Pires, o intelectual Paulo faz questão de pegar na enxada, atividade descrita de forma prazerosa: “Formei-me em muitas áreas, é verdade, mas o amor pela roça continua forte! E será assim até o dia em que finalmente deixar esse mundo”, garante.

*João Carlos de Queiroz é jornalista em Cuiabá (Mtb 381.18-MT).