Padre Dudu: autêntico devoto dos mandamentos divinos viveu em Montes Claros-MG

Republico, abaixo, uma entrevista que fiz com o cônego Hermano José Morais Ferreira (padre Dudu) em Montes Claros-MG. A entrevista abaixo foi publicada no 'Jornal do Norte' (04/05 de abril de 1981).

A aproximação sincera com Deus faz os homens adquirirem uma aparência tranquila, pacífica, irradiando esperança, conforto e fé; virtudes transmitidas através de palavras serenas no âmago da alma humana {às vezes tão ansiosa para encontrar algum apoio, motivação de vida…}

O cônego Hermano José Morais Ferreira (ou simplesmente padre Dudu), denominação carinhosa que recebeu do seu rebanho, fiéis frequentadores da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição e São José {Igreja Matriz}, é imortal exemplo de fé e obstinação.

Padre Dudu começou o seu encontro com Deus desde a mais tenra idade, quando tinha somente dois anos. Nesse tempo, sem saber explicar bem o porquê, o religioso já brincava com santinhos, colocando-os em cima do muro de sua casa e os enfeitando com flores diversas. No lugar dos comuns pedidos de carrinhos (praxe de toda criança), o precoce religioso soltava sua imaginação, já falando de “Papai do Céu” e sempre indagando a respeito de tudo que se referisse à religião católica. 

Benjamim Rego foi testemunha do nascimento dessa brilhante devoção a Deus, e era com sorriso compreensivo que assistia a inocente criança empreender os seus primeiros passos em direção ao Altíssimo. Padre Dudu foi ordenado em Piracicaba – SP…

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A ENTREVISTA…

Por João Carlos de Queiroz, jornalista

Jornal do Norte – Fale de sua terra natal…

Padre Dudu – Nasci no município bocaiuvense, cidade do Senhor do Bonfim. Lá fui batizado e passei parte da minha infância. Quando tinha sete anos, minha família se mudou para Montes Claros.

Jornal do Norte – Seus pais são de onde?

Padre Dudu – São dessa região, município de Montes Claros. Minha mãe nasceu aqui, e meu pai perto de Juramento.

Jornal do Norte – Quando foi que o senhor sentiu o ímpeto espontâneo da vocação religiosa?

Padre Dudu – Para ser sincero, eu não tenho uma noção exata de quando começou meu desejo de ser padre. É interessante uma coisa: tenho um amigo em Montes Claros, Benjamim Rego, meu vizinho, que foi parceiro na fase criança. Segundo ele recorda, mesmo naquela época todas as manifestações dos meus sentimentos estavam relacionadas à religião. Ele diz que eu passava horas e horas enfeitando o muro da minha casa com santinhos e imagens. E só falava em rezar o “Pai Nosso”, “Ave Maria” e outras orações. Sinto-me assim um predestinado por Deus pelo ingresso na vida sacerdotal.

Jornal do Norte – Em qual seminário estudou?

Padre Dudu – Passei por alguns educandários religiosos. Fiz o curso primário em Diamantina e o de filosofia em Belo Horizonte. Dali, fui cumprir noviciado em Jaú. Recebi o hábito branco nesse seminário no dia 25 de março de 1941. Portanto, hoje já tenho 40 anos de sacerdócio.

Jornal do Norte – Como era a rotina no seminário?

Padre Dudu – A nossa disciplina era bastante rígida, idêntica ao sistema aplicado antes no Concílio Vaticano. Mas nós aceitávamos essas regras com o coração receptivamente amoroso, e hoje agradecemos pela formação rigorosa, útil para estabelecer segurança em nossas vidas. Fui ordenado na cidade de Piracicaba numa noite natalina, em 1945. Momento inesquecível…

Jornal do Norte – E o seu relacionamento com os colegas de noviciado: era amigável ou registrava rusgas ocasionais?

Padre Dudu – Ah, era ótimo! Nós vivíamos numa comunidade de irmãos. Número bem reduzido, mas sempre compreensivos uns com os outros. Vivia-se muito bem por lá, falava-se pouco. Durante o dia, tínhamos apenas duas horas para conversar. O restante do tempo era dedicado a trabalho, orações, estudos… Os recreios, relembro, eram animadíssimos: cada um queria contar uma coisa interessante, interpretações diversas. E assim o tempo do noviciado passou rapidamente…

Jornal do Norte – Alguma vez vacilou- ou foi acometido de descrença total – acerca de sua vocação religiosa?

Padre Dudu – Eu nunca tive nenhum momento de desfalecimento da minha vocação. Sempre olhei o sacerdócio como uma meta especial de vida, cumprindo na íntegra todos os degraus da escalada cristã. Isso acontecia muito antes de meu ordenamento. Hoje, sinto-me privilegiado por exercer a profissão de sacerdote.

Jornal do Norte – E sua vinda para Montes Claros, aconteceu em quais circunstâncias?

Padre Dudu – Após minha ordenação, retornei a Montes Claros em junho de 1947 para ser coadjutor (auxiliar, cooperador) do nosso querido e saudoso padre Marcos, vigário local. Com a partida de padre Marcos para a Europa, fui nomeado vigário em 12.02.1950. Ato seguinte, solicitei minha vinda como vigário de Montes Claros, somente interrompendo esse exercício quando permaneci em Belo Horizonte (capital de MG) por oito meses, em decorrência de problemas de saúde.  Durante esse período, o cônego João Batista de Souza Lopes me substituiu aqui.

Jornal do Norte – Ainda sobre o seu regresso a Montes Claros: a saudade da cidade – e dos seus moradores – teve influência decisiva nisso?

Padre Dudu – Logicamente que influenciou. Viver fora de Montes Claros, depois de tantos anos de vivência nessa terra querida, foi de fato um sacrifício enorme. Ao ser informado que retornaria, fui acometido de muita alegria. Poderia dizer que “era o peixe retornando à água”. Foi uma reunião dos cônegos e superiores que determinou o meu regresso. Aceitei essa decisão de coração feliz, aberto. Era tudo que queria.

Jornal do Norte – Pelo que diz, quer ficar aqui pra sempre…

Padre Dudu – Sim, sim! Gostaria de permanecer em Montes Claros até os meus últimos dias.  Sobretudo, por causa da Igreja Matriz, templo que fala tanto de sua história, raízes… Gosto sempre de lembrar daquela síntese de doutor Maurício (cardiologista João Valle Maurício): “Se os povos, as cidades e tudo têm um coração, o de Montes Claros pulsa sobre o altar-mor da Igreja de Nossa Senhora e São José {Matriz}”. Sábias palavras a do amigo médico: vivendo nesta Matriz, de modo especial eu me sinto montes-clarense genuíno…

Jornal do Norte – Naquela época em que assumiu a função de vigário, o prédio atual da Matriz já existia?

Padre Dudu – Quando cheguei a Montes Claros, o cônego Marcos tinha iniciado a reconstrução da Matriz, o prédio que hoje dispomos. Porém, por defeitos na parte técnica e, também, falta de recursos, a continuidade desse trabalho estava comprometida. Então, com toda a confiança, o cônego Marcos autorizou-me a assumir a direção das obras. Consegui cumprir tal empreitada, Deus sabe com quanto sacrifício e apoio precioso da população inteira. Cada tijolo da igreja destaca a generosidade desse povo de Montes Claros…

Jornal do Norte – Que outros benefícios a população tem contribuído com a Matriz?

Padre Dudu – Difícil enumerar a quantidade/qualidade de cada ação empreendida pelos habitantes de Montes Claros em prol da preservação da Matriz e de eventos filantrópicos que essa igreja tem sediado ao longo dos anos. Foram muitos, incontáveis… Aliás, quando cheguei à paróquia local, pensava poder efetivar o cumprimento das leis com o rigor observado nas dependências do convento. A exemplo de proibição de entrada na igreja de moças e senhoras vestidas inadequadamente. Nada de vestidos decotados, justos, curtos, sem mangas. Confesso que cheguei a cometer vários excessos nesse sentido. Depois, compreendi que as leis instituídas foram feitas para ajudar o homem, não escravizá-lo. Regras que se aplicavam às normativas religiosas então praticadas.

Jornal do Norte – Houve uma conscientização do que seria a real religiosidade das pessoas, pelo que diz…

Padre Dudu – Mais ou menos nessa linha. Porque, convenhamos, não adianta uma pessoa estar rigorosamente vestida {de acordo com os preceitos da Igreja Católica} e, por dentro, ser uma alma carcomida, pecadora. Toda regra tem exceção, observei no decorrer do sacerdócio. Passei então a pregar que a conduta interior é a mais importante do que a vestimenta externa. Essa última está atrelada à própria consciência das pessoas, ao discernimento natural de cada situação.

Jornal do Norte – Existe algum fato que tenha sido excepcionalmente destacado durante suas atividades na paróquia?

Padre Dudu – Todos os meus momentos de sacerdote têm sido salutares. Alguns, lógico, com raríssimas exceções, trouxeram angústia momentânea, mas não chegaram a impactar a serenidade e mesmo minha fé. Houve ainda uma série de eventos marcantes, emocionantes, a exemplo da coroação solene de Nossa Senhora pelo Santo Padre, Papa João XXIII. Posso acrescentar também o advento da Cruzada Eucarística; a fundação da Arquiconfraria das Mães Cristãs, um dos braços direitos da Paróquia – e que tivemos a honra de ser o fundador. Cito ainda o Apostolado da Oração, uma das associações mais antigas da cidade, e que tem conservado religiosamente o seu fervor, promovendo a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. São recordações parciais emocionantes da nossa jornada paroquiana…

Jornal do Norte – Antigamente, a Praça da Matriz (Dr. Chaves) ficava repleta de cristãos na Sexta-Feira Santa, local do cumprimento de vários rituais da Igreja Católica alusivos à Paixão de Cristo. Ultimamente, a praça tem ficado quase vazia nessa data de uns anos pra cá. O que sucedeu?

Padre Dudu – Aquelas aglomerações não se constituíam num meio fácil de evangelização para a catequese. Uma vez que a cidade cresceu muito, nossos vigários resolveram realizar essa solenidade da Sexta-Feira Santa em suas respectivas igrejas. Quer dizer: o que antes se concentrava apenas na Matriz, ponto tradicional dos ritos da Semana Santa, foi redistribuído em outras paróquias de Montes Claros. Tática que melhorou em muito a realização dessas cerimônias da Semana Santa, hoje praticadas com mais calma, silêncio e atenção do povo.

Jornal do Norte – O senhor considera a Semana Santa como a maior época de confraternização religiosa entre os cristãos?

Padre Dudu – A gente tem a impressão de que, apesar da Páscoa ser o ponto alto da religião católica, pois  é a maior festa da igreja no País, o povo demonstra mais esse espírito de associação e confraternização é pelo Natal, Nascimento de Cristo. Os cristãos começam a sentir que a Páscoa traz a oportunidade de confraternização, porque é o término da Quaresma, tempo de volta para Deus e tempo de volta para os irmãos.

Jornal do Norte – Quais campanhas o senhor já realizou na Matriz e que considera fundamentais para o fortalecimento da fé do povo?

Padre Dudu – Nós participamos e acompanhamos todas as campanhas voltadas ao bem-estar social dos nossos irmãos. Existem aquelas pré-escritas (Campanha da Fraternidade), da qual somos pioneiros em Montes Claros. Fazemos todo o empenho dessa campanha pela Obra das Missões todos os anos. Fizemos ainda a Campanha pelos Leprosos, pelos Flagelados {da Seca}. Sempre instituímos iniciativas do tipo para auxiliar as pessoas. Não são campanhas estrondosas, do ponto de vista impactante, mas os resultados surgem gradualmente satisfatórios.

Jornal do Norte – Finalizando, padre Dudu: e sobre a Festa do Senhor do Bonfim, qual o significado dessa cerimônia para o senhor, que viu a luz pela primeira vez no vizinho município bocaiuvense?

Padre Dudu – Uma vez que resido há décadas em Montes Claros, não tenho tido muita proximidade com minha terra natal {Bocaiúva} desde esse período. É uma cidade que prezo bastante, e admiro muito a fé daquele povo, devoto de Senhor do Bonfim, homenageado todos os anos festivamente. Já se tornou inclusive tradição no calendário anual de Minas Gerais: os bocaiuvenses sempre promovem uma festa belíssima na nova Igreja do Senhor do Bonfim, com procissões e quermesse. É uma comemoração que atrai fiéis e uma legião de turistas ligados ou não à Igreja Católica. E todos aplaudem o brilho desse evento.

Nota do autor: quando criança, tive a honra de ser coroinha na Matriz, ainda que meio temeroso das reprimendas de padre Dudu, sempre atento às normas da Igreja Católica. Mas ele jamais nos destratou, para meu espanto. Padre Dudu, já nos braços de Deus, é símbolo de austeridade religiosa para todos nós.