Natal disfarça bem a angústia faminta que milhões de pessoas sofrem Brasil afora…

Basta chegar a época natalina e o comércio pipoca luzes e enfeites alusivos a Papai Noel e ao próprio Nascimento de Jesus Cristo. Ornamentos que mascaram hipocritamente a realidade infeliz de dezenas de milhões de brasileiros e de outros lugares do mundo...

Por João Carlos de Queiroz, jornalista – Quando ainda era repórter-editor do Caderno de Cultura do “Jornal do Norte”, em Montes Claros-MG, em 1981, fui encarregado de fazer uma “bela” matéria sobre o Natal. Fiz exatamente o inverso: subi ao Morro do Frade, bairro Santos Reis, considerado sede dos favelados, munido de gravador e câmera fotográfica.

O íngreme percurso sinuoso já denotava a latente angústia que a miséria absoluta impunha a centenas de pessoas daquele morro, todas acotoveladas em exíguos barracos. Pareciam sombras confinadas em casebres de todo tipo: palha, madeira, lona, alvenaria…

Já no cume do Morro do Frade, decorado por uma solitária igrejinha do mesmo nome, entrevistei meia dúzia de famintos moradores. Eles foram surgindo curiosos após perceber um carro diferente na área. Um deles aceitou posar para a foto de capa do caderno, ao lado de raquíticas crianças, filhos e netos. Os demais se limitaram a observar…

Difícil achar algum sorriso feliz no meio daquela turma, compreendi num relance visual. O ar evasivo de adultos e crianças externava que sequer compreendiam a essência natalina que tentara explicar, a proximidade do Natal e o símbolo maior da data (Nascimento de Cristo). No olhar de todos, misto de ansiedade infeliz, estava a realidade diária que a população mundial dificilmente enxerga: a fome!

A reportagem foi publicada e teve grande repercussão na cidade e em outros polos regionais. Quem não gostou muito do teor da publicação foi a diretoria do jornal: quase fui demitido por contrariar as instruções de criar algo alegre e não deprimente.

Não me arrependi da reviravolta literalmente impressa nessa pauta natalina: tinha consciência de ter contribuído para dar um sacolejo violento em muitas consciências hibernadas pelo clima de cristandade feliz e que sempre tende a se alastrar durante o Natal. Colocam uma espécie de tapume nos olhos das pessoas para não enxergarem cenas deploráveis à sua volta…

Isso porque, conforme não é nenhum segredo, soma-se às comemorações sinceras de cristãos uma alegria forçosa, de caráter comercial. Em síntese, a propagada fartura natalina só existe para os abastados, não para quem nada tem na despensa. É afronta desumana ao desespero de pais que choram por não ter como saciar a fome de pequeninos sob sua proteção.

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O que desejo frisar é o seguinte: a fome é persistente a cada manhã, durante o dia e à noite. Não surge apenas no Natal. Campanhas natalinas, portanto, deviam também ser diárias, seguindo o curso natural da exigência do corpo humano em ter algo para suprir suas energias, cada vez mais débeis.

Então, para quem acha que Natal é a maior felicidade do mundo, quando tudo se resolve e estômagos são saciados de forma abastada, basta pensar que essa data tem transcurso célere, e aí os pobres voltam a se virar para sobreviver durante os demais dias restantes do ano. É o recomeço de luta feroz contra os entraves sociais para vencer a impiedosa tortura cotidiana da fome. Para quem é pai, o grito esfomeado de uma criança é pior do que muitas punhaladas no peito…

O Brasil precisa deixar de ser um país hipócrita e cair na real: seu povo está morrendo de fome!

 

 

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