1980 – Quando residia no bairro Morada do Parque, em Montes Claros, tive alguns arranhões sociais com vizinhos, geralmente inconformados pelo fato de proteger e cuidar de animais em situação de rua.
Não foram poucos os que se arvoraram em me aconselhar para que direcionasse tal atenção a famílias carentes das redondezas, especialmente as do Major Prates, bairro bem precário socialmente, naquela época. E acrescentavam:
– Só doido age assim, cuidando de bichos. Vá cuidar de gente, cara!
Não dei a mínima para esses idiotas, pois percebi que tampouco eles faziam algo pelos pobres. Entendi ser pura audácia interferirem na minha conduta de vida, posto que a deles não tinha nada de louvável, pelo contrário.
Inclusive, enfrentei um deles no dia em que saiu à rua dando tapas violentos na cara da esposa, uma senhora de mais de 50 anos. Afiado em lutas marciais, karatê, gritei para que enfrentasse um homem, deixando de ser tão covarde.
O sujeito preferiu ir embora, percebendo que meus punhos o detonariam. Ele mesmo já comentara comigo como conseguia quebrar pilha de telhas e tijolos furados com golpes precisos de mão.
Ganhei, a partir daí, um inimigo ferrenho. O antes sorridente vizinho passou a evitar qualquer contato comigo, “limpando a área” ao perceber que me aproximava.
Então veio o Natal, e eu e mais alguns amigos subimos para a pracinha do bairro, decididos a tomar umas cervejas no Bar de Manoel.
Havia vários grupos por lá, também esperando o relógio registrar meia-noite para começar a tradicional série de abraços e felicitações.
Mal acreditei quando aquele mesmo vizinho covarde, o espancador de esposa, me abraçou efusivamente, idêntico ao afago de velhos amigos-irmãos. E ainda disse, cinicamente:
“Um Feliz Natal, irmãozinho! Tudo de maravilhoso para você!”
Educado, retribuí um “igualmente”, sem denotar o menor entusiasmo, e procurei me distanciar desse dissimulado sem dar muito na cara. Mas ele ficou esbanjando um persistente ar simpático o tempo todo, de olho em mim.
Não foram duas ou três vezes em que esse batedor de mulheres indefesas levantou os braços efusivamente em minha direção, externando abraços amigos.
Também retribuí caloroso; afinal, parecia que ele estava mesmo arrependido do seu papelão covarde, sendo sincero…
DIAS APÓS…
Transcorrido o Natal e Ano Novo, logrei encontrá-lo novamente no Bar de Manoel, tomando cerveja sozinho. Ainda recordando do seu esforço em restabelecer nossa amizade no dia de Natal, cumprimentei-o com gesto firme, dizendo um BOM DIA!
Qual não foi minha surpresa ao vê-lo girar a cadeira para ficar de costas para mim e não retribuir o cumprimento, gesto evidente de desprezo. Assim permaneceu enquanto comprei pão e outras coisas por lá…
Ao deixar o local, relanceei olhar à mesa do covarde valentão, que reassumira sua antiga postura, ou seja: virara a cadeira propositalmente somente para me ignorar, retomando a posição anterior.
***
JÁ RESIDINDO EM CUIABÁ, tenho registrado lances quase idênticos, envolvendo vizinhos que se ignoravam durante o decorrer do ano. Porém, à meia-noite de Natal, ou Ano Novo, sempre saem às ruas feito zumbis errantes, abraçando aleatoriamente a vizinhança inteira.
A ideia é dizer que estão imbuídos de cristalino espírito de confraternização. Ou seria de cinismo?
Nem preciso dizer que sempre adoto atitude parecida à do hipócrita espancador de esposa do Morada do Parque: também viro minha cadeira [quando armam mesas festivas na rua] ou simplesmente saio do local ao perceber que um desses se aproxima…
Por que isso acontece apenas no Natal e Ano Novo, não sei… A impressão que tenho é a seguinte: nessas datas, os lobos costumam se vestir de cordeiros, e travestidos de angelicais tentam enganar os incautos que tripudiaram por 12 meses. E ainda acham normalíssimo que eles aceitem ser afagados com suas garras traiçoeiras!
Prefiro, por ora, e isso significa que pode ser para sempre, manter total distância de “seres humanos” tão pérfidos. A gente não ganha nada abraçando cobras peçonhentas, aprendi…
João Carlos de Queiroz, jornalista Mtb 381.18 Drt/MT