Minha paquera noturna devia ser fantasma; simplesmente sumiu…

Montes Claros-MG, anos 80 – Esse caso aconteceu perto da meia-noite, quando rodava a esmo no meu velho Dodge 1800 GT, o conhecido Doginho, nas proximidades da Escola Normal Oficial, bairro Melo.

Por ser horário avançado, sabia que nem estudantes transitavam mais naquele pedaço. Mas, por intuição, resolvi passar na rua do Colégio Alcides Carvalho, o popular Polivalente, situado a alguns quarteirões abaixo. Foi aí que a encontrei…

A moça elegante caminhava leve e descontraída pela rua desértica, como se estivesse passeando num parque. Seus longos cabelos esvoaçavam fáceis ao vento noturno, prenunciando chuva. Ela devia morar ali perto…

Aproximei-me cauteloso, convidando-a de forma gentil para dar uma volta comigo. Na sequência, abri a porta do carro, esperando que apressasse o passo, ao invés de embarcar.

Por lógica, nenhuma garota embarca em veículo de quem surge do nada, no meio da noite.

Para minha surpresa, a garota desconhecida não se fez de rogada, e embarcou rapidamente no carro, batendo a porta com força; também não precisava tanto…

Senti que aquela noite realemente prometia, e então perguntei seu nome. Estranhamente, ela não respondeu, tampouco virando o rosto. Queria tanto vê-la!

Algo me avisou para desistir daquela paquera, em virtude da estranheza geral reinante. Contudo, arranquei o carro…

Para descontrair até a mim próprio, entabulei monólogo aleatório, já ciente de que minha passageira não responderia nada.

Ela continuou a alisar os longos cabelos pretos com mãos branquíssimas e de dedos finos, só não facultando a menor exibição da face. Devia ser linda, fiquei pensando… Ou talvez não.

Senti o carro sendo inundado de aroma de perfume enjoativo, idêntico a jasmim. Desses que pregam na pele e roupas; tudo continuava bem esquisito…

Mais adiante, acessei a entrada do Ibituruna, que, nessa época, estava em fase de criação, com ruas asfaltadas – mas sem luz, passeios -, e lotes exibindo apenas muros ou construções inacabadas.

Meu destino final era o alto do Ibitiruna, de onde teríamos visão privilegiada da cidade, além de poder namorar à vontade. Espécie de motel  a céu aberto…

Encostei o carro virado para a cidade, e fiz menção de acender a luz interna. Foi aí que minha estranha passageira falou, sibilando rispidez gelada na voz:

– Nem precisa acender essa luz: olhe pra cá que você vai me ver!

Tais palavras soaram como alerta de pânico: eu veria o quê?!

Tentando parecer natural, disse ser mais prudente sair dali o quanto antes. Local extremamente desértico, perigoso.

Mesmo manobrando o carro para descer rumo ao Melo, a garota continuou sibilando:

– Olhe pra mim! Não queria tanto me ver?

Não olhei e nem respondi: só acelerei o Doginho para sair daquela escuridão o mais rapidamente possível…:

De repente, a garota resolveu emudecer, não disse mais nada no restante do curto percurso. Assim permaneceu até pararmos exatamente no lugar onde ela embarcou, quase frontal ao portão da escola.

– Qualquer outro dia a gente combina direito um passeio – disse a título de despedida/desculpa.

Sempre elegante, ela desembarcou e saiu andando devagar, no sentido oposto.

Não perdi tempo e arranquei o carro, fazendo uma curva de 180 graus, metros após. Queria desvendar aquele mistério a todo custo…

Nem preciso dizer que não encontrei mais ninguém na rua, apesar de os muros de ambos os lados serem altos, sem entradas. O único portão existente era o do colégio, rigidamente fechado.

###

Também é desnecessário citar que, por vários anos, evitei passar à noite perto do Polivalente: vai que essa misteriosa garota resolve dar o ar das graças  novamente!

FOSSE nos dias de hoje, nem cabelos teria para arrepiar de medo…

JCQ