Então: Brasil ainda quer que Deus aprove o “samba comemorativo dos mortos”

Com quase 700 mil mortos até agora, saldo macabro dessa pandemia, a única coisa que o Brasil não deveria fazer é promover festejos de encerramento do ano. Mas vá dizer isso pra seu povo! Se brincar, cada urna funerária se transformará em surdo improvisado. Importante é sambar; mesmo que a dor dos enlutados seja abafada pela ruidosa bateria e fogos de artifício. Cânticos realmente afrontosos...

Ainda que várias capitais e municípios brasileiros agora tentem mascarar a liberação dos festejos de final de ano (e carnavalescos), “tudo vai ser como dantes”, podem apostar. Apesar das quase 700 mil mortes decorrentes da covid-19, somando-se a uma série de sequelas irreversíveis, o brasileiro “precisa e quer sambar”.

O luto dos familiares de quem partiu será impiedosamente substituído pelo pandemônio de foguetório e, na sequência, em 2022, de baterias das escolas e blocos. Não duvidem, estamos no Brasil!

Uns hão de dizer que não é bem assim: que não teremos Revéillon e nem o Carnaval costumeiro, apenas “comedidas comemorações”, principalmente na virada do ano. É chover no molhado, enxugar gelo, cantar pra boi dormir…

O Rio de Janeiro, por exemplo, que antes anunciara a não realização do Revéillon, voltou atrás: está programada a eclosão de fogos de artifícios em 10 pontos da Cidade Maravilhosa.

Só gostaria de saber qual é o motivo de tanta comemoração, pois cada rojão e foguete vai sinalizar brinde desrespeitoso a uma pessoa a menos no fechamento do ciclo anual. Refiro-me aos prostrados letalmente pela pandemia, ora em repouso eterno em covas por tudo quanto é canto desse país irresponsável.

O objetivo de tamanha irresponsabilidade é FINANCEIRO. Torcem para que as festas de Fim de Ano lotem ruas e clubes país afora, estratégia infalível para injetar mais dólares na nossa fragilizada economia, há tempos quase similar aos moldes venezuelanos.

O brasileiro esfomeado, que tem disputado ossos com cachorros nas portas de açougues para se manter, suprindo a fome da prole sob seus cuidados, é o mesmo que vai rebolar sem parar pelas ruas, acenando “estou aqui, venha me pegar”, para o vírus assassino. E ele vai pegar!

Em resumo, o Brasil sempre consegue mudar suas realidades de forma relâmpago: até há meses atrás, não era permitido nenhum tipo de aglomeração. Várias medidas ainda são válidas em igrejas, bancos, à exceção de coletivos públicos, que andam feito latas de sardinha.

Se a programação de Fim de Ano implodirá a segurança traçada pela saúde, facultando livre acesso do vírus e variantes robustecidas, isso não se enquadra nas preocupações dos que ditam as ordens oficiais, prefeitos e governadores.

O Brasil, país passa-fome da atualidade, está francamente receptivo a aumentar drasticamente o registro de mortes pela covid ao facultar tais festas.

Será uma outra supremacia vergonhosa do território verde-amarelo, destacada mundialmente. Mas, idêntica a tantas outras – em que logramos encabeçar liderança -, esta também não merece nenhuma comemoração. A menos que os mortos saiam das tumbas e se integrem aos foliões, solidarizando-se com sua insensibilidade.

João Carlos de Queiroz

 

 

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