A exemplo da atrocidade sofrida pelo cão Orelha catarinense, torturado cruelmente por nazistas adolescentes da alta sociedade, também o Orelha cuiabano merecerá registro histórico para imortalizar a extrema covardia da qual foi vítima: está sendo elaborado um livro contando sua história e o triste fim que covardes anônimos o sentenciaram.
Idoso e muito doente, o cão Pretinho, segundo o o apelidaram, se refugiava numa oficina de calhas da Avenida São Sebastião, a menos de dois quilômetros da área central da capital mato-grossense. Dócil, jamais investiu contra ninguém.
Eu o alimentava diariamente, e também fazia curativos nos ferimentos. Inclusive, consegui até uma guia de internação junto à Bem-Estar Animal, órgão da Prefeitura de Cuiabá.Porém, ao levá-lo à Clínica Megalos, conveniada, num domingo, eles alegaram que aquela guia fora expedida no dia anterior, sábado. E – acrescentaram – a Bem-Estar não autorizou a internação.
Não levei o cão no sábado por um motivo: a Clínica Megalos simplesmente não atendeu as várias chamadas telefônicas e nem no WhatsSapp que fiz, quando questionei se estavam de plantão.
Ainda chequei no Google, ali constando que a clínica estava fechada.
Frisei tal coisa para a veterinária plantonista, em vão.
“Nós podemos internar, senhor, só se for particular”, respondeu.
Os custos de uma consulta, exames e internação são altíssimos. Eu não dispunha de recursos para bancar tais procedimentos.
Desesperado, temendo que o cão Pretinho viesse a óbito, tentei, sem êxito, falar com o proprietário dessa clínica. A mesma veterinária interveio, e respondeu que ele não poderia me atender.
Com o cão Orelha pingando sangue da orelha e ancas, insisti para a Bem-Estar autorizar validade da guia de internação como urgência. Afinal, eles mesmos dizem que internações do tipo são possíveis apenas em casos extremos. Era o caso do Pretinho, o Orelha cuiabano.
Mais negativas da Bem-Estar foram expedidas categoriamente, afirmando que teria que reagendar a pretendida internação.
Em resumo: tentei reagendar essa internação nos dias seguintes na Bem-Estar, sem êxito.
No sistema eletrônico da Bem-Estar, conforme constatou a veterinária Maria Elisa, funcionária do órgão, consta os vários alertas que fiz a respeito.
Ou seja: enquanto a Bem-Estar negava os pedidos de internação, nosso Orelha padecia à míngua, com risco de morte, sem que o órgão protetor abrisse uma guia para interná-lo.
Eu estava correndo contra o tempo para salvá-lo e evitar que aquelas pessoas diabólicas dessem sumiço no pobrezinho. Sentiam-se incomodados sua presença na área:cão idoso e doente, repleto de feridas e pingando sangue.
Não foram ameaças aleatórias, pois realmente deram sumiço no Orelha entre sexta e sábado, quando não o encontrei mais na oficina de calhas para alimentá-lo.
Os mesmos vizinhos que propagavam estar loucos para vê-lo longe dali disseram que devia estar atrás de cadela no cio. Desculpa esfarrapada, desmentida no sábado à tarde e no domingo, pela manhã, ao ver a referida cadela acompanhada de outros cães. Pretinho não estava entre eles.
Registrei Boletim de Ocorrência na Bem-Estar Animal e comuniquei seu sequestro à Delegacia Estadual de Meio Ambiente. Conversei longo tempo com o investigador Robson, fornecendo todos os detalhes solicitados.
“Se não o encontrarem logo, ele vai morrer de fome. Está muito debilitado”, expliquei.
Foi informado pela DEMA que policiais iriam fazer uma investigação a respeito. Infelizmente, apenas para apurar quem foi o criminoso que o levou, visto que o nobre Orelha já partiu, segundo relato abaixo.
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Uma semana depois, no domingo à tarde, Dia dos Pais, perto das 18h, soube pelo proprietário da referida oficina de calhas que um homem informou ter levado Pretinho (Orelha cuiabano) para o trevo de Livramento, a dezenas de quilômetros dali. Não quis identificar quem foi o malvado. “Não conheço”, disse.
“Ele contou que deixou o cão num posto lateral a esse trevo”, informou.
Nem pensei duas vezes: ia à missa, e ao saber do suposto paradeiro do descarte cruel do cão Orelha, saí de moto rumo à rodovia, enfrentando tráfego pesado e arriscando minha própria vida.
Infelizmente, Orelha não estava no posto, mas informaram tê-lo visto por ali dias antes, andando com corda no pescoço.
Retornei a Cuiabá sentindo muitoi frio [não levara casaco] e preocupado em não me acidentar. Afinal, o fluxo de veículos indo e vindo triplicara ao cair da noite: pessoas voltando para casa depois das comemorações do Dia dos Pais – moradores de Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres, Poconé, etc…
Graças ao bom Deus, cheguei bem.
Na segunda, bem cedo, regressei ao mesmo trevo, esticando a procura pelo cão e ouvindo mais pessoas. Muitas informações de que ele estivera realmente por lá. Um frentista afirmou:
“Ele andava desnorteado por aí; tinha corda no pescoço. Acho que alguém a tirou depois; mas faz dias que sumiu…”
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Antes de dormir, pedi para que Pretinho me mostrasse onde ele estava, angustiado por saber que poderia estar infestado de bichos e dentro da mata. Aí, tive um sonho bem elucidativo…
No sonho, ao percorrer a rodovia de Livramento, acessada a partir desse trevo do posto, vi uma pequena comunidade à esquerda. Diminuí a marcha, atento ao acostamento, e lá estava Pretinho acocorado, fraco de tanta fome. Eu então exclamei feliz:
– Encontrei você! Graças a Deus!
Ele me olhou ternamente, agradecido pelo meu empenho tenaz em procurá-lo. Eu o abracei amorosamente, sem me preocupar com o sangue que sujava minha camisa.
– Agora você está a salvo, meu anjo! Vai embora comigo!
Acordei quase imediatamente, agradecendo a Pretinho e também a Nossa Senhora e Santo Antônio por essa orientação. E, pela terceira vez, voltei ao trevo, agora de carro, a fim de resgatá-lo.
Um amigo foi comigo, e levou luvas. Cético, disse que dificilmente encontraria o animal vivo, como de fato aconteceu: localizei o corpo do cãozinho exatamente no local em que o vira deitado no sonho, à entrada de uma pequena comunidade. Ele veio me avisar em sonhos onde estava!
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Ali mesmo, após retirá-lo do acostamento, providencei sua sepultura, cobrindo-o com camiseta e terra. Deixei o terço que levava no retrovisor interno do carro sobre seu corpo, e rezei para que descansasse.
– Deus o tem agora junto Dele, Pretinho!
Resta agora aguardar para que o criminoso pague por seus crimes.
Por Editoria-Geral