“Assombrações sabem para quem aparece…”, diz antigo jargão popular

A VELHA DOS DENTES DE LÂMINA - FINAL

MONTES CLAROS-MG, anos 60 – Nem sei exatamente se posso dizer se é um final desse relato assombroso; levando-se em consideração que a fantasmagórica casa já foi demolida (mas construíram outro no mesmo terreno), pode ser que “coisas” estranhas ainda estejam acontecendo por lá…

VAMOS AO PRETENSO FINAL…

Trêmulo, escutei passos lentos se aproximando da entrada sem porta do meu quarto. Ver aquele espaço aberto se tornara um grave incômodo noturno desde que nos mudamos para lá…

Nas semanas seguintes, também percebi não sermos os únicos inquilinos daquela casa: geralmente, nos finais de tarde, ocasionava de brincar com um menino simpático da minha idade. Ele tinha os mesmos gostos meus, e sorria fácil. Nunca vi o menor sinal de contrariedade em suas feições…

Dia a dia, mais precisamente nos finais de tardem, quando me visita, brincávamos pra valer. Desenvolvemos uma sincera amizade. Não recordo, sinceramente, de ter tido um amiguinho tão bacana!

Havia, ainda, uma menininha ruiva igualmente sorridente, magrela e arredia. Como gostava de correr pela casa inteira! Só não falava uma sílaba, apesar de movimentar a boca na tentativa de que eu fizesse leitura labial. Devia ser muda, imaginei na época…

Essa garota sempre mantinha uma distância prudente da minha pessoa. Ao menor gesto para tentar tocá-la, saía correndo para algum cômodo da casa. Esquiva demais!

– Ué… Ela se escondeu onde, agora??? – questionava sempre ao procurá-la.

Ao ser flagrado por minha mãe “conversando sozinho”, expliquei serem “meus amigos”;  apresentei-os sem cerimônia.

Gentil, ela ensaiou cumprimentar os amigos invisíveis aos seus olhos.

– São lindos que nem você, Joãozinho! – disse.

A menininha ruiva a olhou desconfiada, afastando-se para o canto da parede. Dali, já correu para algum quarto…

Emitindo um nobre olhar compreeensivo, “Notinha” (Maria Eny) sorriu e disse para ir tomar banho.

Por tempo indefinido, enquanto meu irmão mais velho estudava à tarde, brinquei com eles de forma animada, sem atentar que meus aliados de folguedos infantis sequer existiam fisicamente…

Para encerrar esse necessário preâmbulo, não tenho recordações do tempo exato em que ambos sumiram de vez. Chamei-os frequentemente, mas nada de aparecerem, que chato!

Senti muita falta, lógico: crianças gostam de crianças!

A VELHA…

Agora, o autor(a) dos lamurientos passos de gente idosa se detivera bem na entrada do meu quarto. Complicou!

Relanceei olhar medroso naquela direção, porém nada vi. Foi inevitável engolir saliva seca…

Os escombros de coragem – resgatados na tentativa de descobrir quem era o misterioso invasor(a) – foram substituídos por refúgio relâmpago sob o grosso cobertor de lã.

Os passos misteriosos adentraram no quarto, aproximando-se da minha cama. Retesei bem os pés e mãos, para não permitir ser desnudado no leito e ver alguma coisa terrível…

Os passos em questão agora evidenciavam descompasso forçoso entre si, como se estivessem embaralhados. Que esquisito!

Idosos andam assim, imaginei; têm dificuldades de locomoção…

Sentindo leve asfixia, pois o surrado cobertor vedara parcialmente a entrada de oxigênio, à exceção de rasgos de velhice no tecido, comecei a suar aos pandarecos.

Tentei controlar a respiração, gradualmente alta, já chiando…

UM grito feminino, nitidamente rouco, rompeu o silêncio sinistro do quarto.

Fosse quem fosse, tentou puxar meu cobertor vigorosamente. Foi uma luta de segundos, apenas; depois, tudo cessou…

Como aquele grito não acordou meus pais?!

Permaneci por tempo impreciso debaixo do cobertor de lã, sentindo o pijama sendo encharcado de suor…

Com a continuidade do silêncio, e não ouvindo mais nada, arrisquei olhar para o lado da parede. Lá estava uma mão gorda e branca espalmada no vão da cama!

Foi o bastante para tentar sair da cama, mas no quadrilátero central da casa, defronte ao meu quarto, agora brilhavam luzes multicoloridas, predominantemente azul, branco e vermelho…

Enfiei-me novamente sob o cobertor; nova maratona de suplício.

Também não sei dizer quanto tempo fiquei recluso nessa sauna improvisada…

Depois, criando coragem, abri fresta minúscula no cobertor e chequei a área ao redor, tudo quieto. Nada de mão, velha, luzes no centro da casa…

Saí finalmente correndo rumo ao quarto dos meus pais, apenas acordando minha mãe ao saltar abruptamente entre eles. Ela se assustou com minha invasão intempestiva, mas logo pegou no sono.

Sentindo-me protegido entre ele, fiquei observando o andamento dos acontecimentos…

Não tardou para aparecer um duende verde, anão de cara enrugada, que procurava algo na gaveta do criado lateral à cama. Ele evitava me olhar ao virar a cabeça; forcei contato visual, sem êxito.

Nas paredes que não se encontravam com o telhado em V, vi u monte de macacos correndo ágeis. De onde surgiram, nem imagino…

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ACORDEI bem cansado, ao ouvir minha mãe me chamando para tomar café.

Já sabia que a primeira refeição do dia se constituía somente de café frio na velha caneca verde, pão sem manteiga e farinha de milho.

– Quando pai vai trazer leite da cooperativa, mãe? – pergunta que sibilou inutilmente na cozinha durante anos…

Por João Carlos de Queiroz, jornalista

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