As lavadeiras de Glaucilândia ainda acenam felizes na minha memória…

À falta de recursos financeiros, viajávamos sempre para Pires e Albuquerquer na terceira classe do Trem Azul. Mas o carro em que nos acomodávamos nada tinha de azul: era o conhecido vagão marrom, muito utilizado pelos retirantes nordestinos. As desconfortáveis cadeiras de pau castigavam sem piedade as nádegas menos carnudas...

MONTES CLAROS-MG – Tornou-se praxe nas férias escolares, na fase criança, esticar as canelas até o sítio dos tios Ambrósio e Benonina, em Pires e Albuquerque, distrito bocaiuvense. Percurso de aproximadamete uma hora, por via ferroviária, a partir de Montes Claros. Depois de desembarcar, enfrentávamos mais uma hora de marcha até o sítio…

A única parada nesse trajeto era em Glaucilândia, distrito famoso pela ponte de ferro e suas incansáveis lavadeiras. Dizem, inclusive, que essa performance traballhadora gerou poesias e lendas incríveis sobre tudo que as esforçadas mulheres do rio sentiram e viram, lavando roupas…

Nem imagino quantas vezes passamos por essa ponte e pude acenar às desconhecidas amigas do rio. Acredito que muitos devem ter feito o mesmo, quedados pelo hipnótico lugar e pela maestria com que batiam as roupas.

A antiga Estação Ferroviária de Pires e Albuquerque já nem existe mais. Na foto, quando estava parcialmente demolida…
Créditos: Alberto de Oliveira Bouchardet

 

Este autor na fase criança em Pires. Ao fundo, o cavalo Passarinho…

Mesmo sem interromper a saraivada de açoites nos tecidos, elas acenavam educadas…

Dava a impressão de que nunca se ausentavam das pedras do Rio Verde Grande, batendo roupas ali noite e dia. Pelo menos, postado numa das janelas do trem, em observação persistente, pensava assim…

Minha mãe dizia que todas tinham que cuidar da casa e de outros afazeres.

“Lavar roupas é apenas uma parte do serviço, Joãozinho: elas fazem comida, limpam a casa e arrumam tudo. Isso, sem contar as catadeiras de ovos, ou as responsáveis pela ordenha matinal. Senão, vai faltar leite…”

Lógico que minha saudosa genitora utilizava expressões mais cabíveis, em termos de simplicidade, ao meu parco entendimento da língua pátria…

O fato é que meu imaginário infantil concebeu figura de heroínas perpétuas às simpáticas lavadeiras de Glaucilândia. Sem pestanejar, confessei à minha mãe que gostaria muito de conhecê-las, um dia…

– Não vai dar tempo hoje, viu? Já passamos pela ponte…

Ainda que desapontado, imaginei que, no regresso a Montes Claros, poderia vê-las novamente. Só que meus pais escolhiam pegar o trem da tarde, que passava pelo povoado de Pires quase ao anoitecer, procedente de Belo Horizonte.

Após a rápida parada, e mais algumas minutos de marcha ritmada, a noite chegava sem cerimônias, impondo cortina teatral ao cruzarmos a ponte de Glaucilândia. Inútil, então, olhar pelo vidro espesso da janela, em busca das notáveis lavadeiras: o vidro só refletia as luzes internas do vagão, obscurecendo tudo lá fora…

###

Já adolescente, observei redução drástica nesse grupo de trabalhadoras. Certamente, as faltosas estavam envolvidas em funções imprescindíveis na comunidade rural, deduzi…

Mais viagens de férias a Pires e Albuquerque aconteceram, e pude comprovar, desolado, que a maioria das lavadeiras tinha mesmo debandado para algum lugar desconhecido.

Doravante, passamos a cruzar a Ponte dos Ecos, conforme apelidei, sem receber mais nenhum afago humano dos não viajantes – as lavadeiras.

Sobrou um sentimento vazio, de perda; mal saboreava o sacolejo rangedor da centopeia gigante em que viajava nos  trilhos da R.F.F.S.A., ansiando pela chegada em Pires e Albuquerque; início de sequencial marcha de uma légua e meia, à custa dos próprios pés.

Por João Carlos de Queiroz, jornalista

Direitos autorais reservados

 

 

Ciente de que nunca as veria ociosas, ou mal-humoradas, já saía de Montes Claros ansiando pela travessia rápida na “Ponte dos Ecos”, segundo a apelidei: é que achava cabuloso os gemidos do aço se contorcendo à passagem da centopeia gigantesca, igualmente metálica.

Também postado numa das janelas, intrigava-me o fato de aquela turma de trabalhadoras se sentir tão à vontade batendo roupas nas pedras “para espantar a sujeira”, conforme soubemos depois.

 

Ou melhor explicando: acomodar-se da melhor forma possível nos rústicos vagões dos retirantes, famosa 3a. classe.