A velha dos dentes de lâmina (Parte II)

(Antes de falar da bruxa, farei pequeno preâmbulo sobre nossa rotina nessa casa assombrada)
MONTES CLAROS-MG, ANOS 60 – Na estranha casa precária em que moramos na confluência da Avenida Geraldo Athayde, de acesso ao Alto São João, meu pai descobriu ossos humanos ao abrir valetas para montar horta.
Foi ali que dei de cara com uma velha fedorenta comendo latas de de sardinha. Não o conteúdo das latas, a sardinha, mas o metal.
Os dentes dela pareciam lâminas, rangendo ameaçadores durante a mastigação…
Não tenho, enfim, a mínima saudade dessa casa, lugar que considero amaldiçoado. Residimos por lá espichados anos, década de 60, de agruras financeiras indescritíveis.
Meu pai trabalhava então na cooperativa de laticínios da Avenida João XXII, lutando de sol a sol. Recordo do ensebado macacão que ele usava na cooperativa: exalava odor de suor e manteiga.
Volta e meia, minhã mãe nos levava até lá, geralmente para pegar algum dinheiro. Meu velho guardava trocados preciosos…
Todos já a conheciam na cooperativa, e a cumprimentavam respeitosamente. Ela retribuía recatada, sorrindo simpática.
“Seo”Tião, motorista da cooperativa, sempre fazia questão de explicar o funcionamento do maquinário para o mano mais velho, Zé Antônio.
Mordaz, também cansei de ouvir o mano dizer:
– De novo, “seo” Antônio?! O senhor já me falou tudo isso várias vezes…
“Seo” Tião fingia não ter escutado, e quase cochichava:
– Você entendeu tudo aqui, Joãozinho?
Criança de cinco anos entende pouca coisa…
Porém, esperto, eu respondia que sim, pois sabia que aquele senhor grisalho nos proporcionava excelentes passeios na área rural.
Íamos regularmente à Lagoinha, região lateral à Br-135, a fim de catar cascudo delicioso. Uma espécie de “jaca” de gomos amarelos; fruto conhecido como “cabeça de nego”.
Também mergulhávamos nos açudes temporários do lugar, mas era preciso ter cuidado: a areia dos poços – formados no período chuvoso – entrava fácil nos olhos e boca.
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Particularmente, mesmo imberbe, eu achava interessante uma das máquinas barulhentas dessa cooperativa, equipada com pás similares às utilizadas por embarcações a vapor.
Essa máquina cumpria missão rotativa em ritmo incansável: suas pás eclodiam ruidosamente na água de poço retangular.
Ela funcionava dentro de quadrilátero gradeado, por medida de segurança.
As pás, em posição horizontal, cumpriam mergulhos sucessivos, gerando uma brisa gelada, de aroma amanteigado. Um flap, flap, flap bem estrondoso…
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Conforme disse no texto inicial, mesmo com meu pai trabalhando numa cooperativa, raramente tínhamos leite/manteiga em casa. O café da manhã se resumia a farinha de milho e pão seco.
Não era incomum mergulhar o pão dormido na caneca de café, já misturada à farinha de milho, a fim de amolecê-lo um pouco.
Procedimento idêntico ao mergulho rápido das pás rotativas da cooperativa…
Quando citei que vivenciamos agruras financeiras nessa casa, vem à mente a imagem de minha mãe costurando roupas da vizinhança e também as nossas, numa singela máquina Singer.
Essas costuras rendiam algum dinheirinho, soma importante para complementar o orçamento doméstico.
Na verdade, era mais do que um simples costurar, pois a máquina sem motor a obrigava a pedalar ininterruptamente.
– A senhora consegue pedalar também meu velocípede? – quis saber um dia.
Nem sei como, ela conseguiu adquirir um motorzinho, abandonando de vez essa maratona pedalante.
Além do motor, a Singer ganhou ainda um potente refletor; não tardou para que eu descobrisse que poderia improvisá-lo num projetor de eslaides…
Essa rústica aparelhagem de projeção envolvia também parte de caixa de sapato, que tinha lente de grau acoplada ao centro. O foco se restringia a movimentar a caixa para trás ou para a frente.
No início, eu utilizava plásticos com figurinhas que os postos de gasolina afixavam nos parabrisas dos carros. Depois, passei a emendar pedaços de filmes 35 mm, catados no lixo dos cinemas.
A partir daí teve início uma das minhas paixões: CINEMA.
O primeiro filme oficial que assisti foi Branca de Neve e os Sete Anões, na Escola Quita Pereira. Foi uma exibição de eslaides sem som, numa sala abafada, sequer sem ventilador. Mas adorei!
MAS VAMOS À BRUXA, APÓS ESSE LENGA-LENGA…
Nas semanas seguintes ao encontro com essa velha bruxa, passei a evitar andar pelo quintal, mal chegando à sacada.
Nas horas crespuculares, nem olhava pra lá…
Nem falei nada em casa sobre o encontro sinistro que tive semanas antes, temendo represálias noturnas.
Se a velha apareceu do nada no quintal, que tinha muro alto, poderia também surgir dentro da casa…
E o pior foi que aconteceu exatamente assim! Conto no episódio seguinte, FINAL.