Procurem o Natal dentro de si mesmos…

Há crianças que já nem acreditam em Papai Noel, fábula ridícula hoje para muitas. O melhor Natal, concluem, é uma mesa farta de suprimentos alimentares. Pouco a pouco, os brinquedos perdem espaço gradativo no foco de interesse infantil; a maior cobiça é pelas telas brilhantes dos celulares

Nas observações que fiz acerca das interessantes aulas de ensino religioso, a dedicada professora Érika procurou despertar nas crianças do 3o. ano B a essência do Natal, ou seja: qual é o mesmo o real propósito das comemorações dessa data tão famosa nos dias finais de dezembro.

Pacientemente, Érika traçou distintos perfis acerca do Natal, à livre escolha dos alunos; uma espécie de teste aleatório para saber se realmente conhecem os pilares que compõem o Natal, símbolo religioso propagado mundialmente.

Numa das fileiras da sala, a enigmática TDE Josy sempre observa tudo detidamente, alisando os cabelos e/ou conferindo as próprias expressões faciais num espelhinho.

Josy é quem auxilia a professora Érika a conter a turba barulhenta da sala, nos  momentos de maior eclosão de entusiasmo. Também é organizadora das brincadeiras de recreação, além de assistir esplendidamente o desempenho do inteligente e indócil Moisés, autista sob os seus cuidados.

Lógico que o contínuo ziguezaguear de Yuri pela sala [outro aluno com espectro autista] implica em cansativos e repetitivos chamamentos:

– Yuri!!! Yuriiiiiiiiiiii!! 

Faz parte  do cotidiano escolar…

Em síntese…

Não foi nenhuma surpresa – à exceção de poucas crianças – saber que a maioria delas interpreta o Natal apenas como mais uma data festiva no calendário anual.

Sequer a interligam à imagem de Cristo, o Nascimento do Criador; ou a confraternizações familiares que costumam dissipar mágoas comuns, acalentadas durante o decorrer do ano.

Comentários inocentes endossam essa errônea convicção, seguindo-se outros de caráter mais realista. Eis alguns:

“Não teremos Natal lá em casa, fomos avisados: meus pais estão sem dinheiro para comprar comida e brinquedos” – disse uma menina, expondo olhar resignado aos colegas.

Houve, ainda, quem indagasse inocentemente:

“Natal é uma festa, professora? Quantas vezes acontece?”

Já outro aluno, anunciou solene:

‘Vou comer muito neste Natal!”

Logicamente, tais comentários se associam aos que tentam edificar deslumbrante castelo de sonhos para sobrepujar frustrações previsíveis em épocas similares.

Nem tudo no Natal é alegria ou felicidade, hão de convir.

Ouvi, certo dia, uma exposição sonhadora bem interessante:

“Meu pai nos prometeu uma viagem a Disney, mas recusei. Meus irmãos insistem em ir. Disse pra ele que quero ir mesmo é para a Austrália. Já viram como aqueles cangurus saltam alto e gostam de dar murros e pontapés? São valentes lutadores! Agora, vou ver tudo isso de perto…”

O relato partiu de um aluno, confesso entusiasta do Jiu-Jitsu.

Dá para imaginar a expressão de perplexidade de Érika ao ouvir essa trivial soberba inocente?

Não que seja impossível isso, mas ela é conhecedora das limitações pedagógicas e do suporte familiar de cada um dos alunos. Sabe exatamente quem é fantasioso.

Voltamos, assim, ao tema natalino, tropegamente abalroado por disparates cômicos.

Pacientemente, Érika suspirou fundo durante uma dessas aulas, antes de começar a explicar:

– Atenção, crianças: vocês não conhecem mesmo nada do significado do Natal?!” – questionou alto, à espera de alguma resposta.

Vozes miúdas se ergueram de cantos isolados da sala, tentando explicar que conhecem, sim. Mas cada aluno vê o Natal à sua maneira, ou mesmo conforme os pais “acham” que deve ser.

Os demais alunos, por precaução, preferiram ouvir os colegas com jeito desconfiado, sem opinar. Palmas para o ‘bem-comportado’ Arthur, que só sai do sério após às 17h.

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As aulas prosseguiram assim em clima de resignado silêncio, logo substituído por repentina agitação barulhenta, comandada por manjado grupo incorrigível.

É a turma do pula-cadeiras e bagunça geral; quarteto de assíduos frequentadores da sala da diretora e das coordenadoras do educandário….

– Parem!!! Quero ouvir o barulho do silêncio, 3o. ano! Por favor! – exclamou Érika.

A súbita imobidade de sua mão direita no quadro – reforçada por olhar fixo aos bagunceiros – estatizou a sala inteira.

Sem deixar de fitar seriamente os alunos, Érika optou por pausar o texto no quadro, pois percebeu que precisava falar mais sobre o Natal. A ideia era incutir qual é o propósito importante dessa data na mentalidade de cada cabecinha ali presente.

Importante: a experiente professora sempre unificou ensino pedagógico/religioso sem impor qualquer preferência; referência clara de respeito a instituições distintas de fé – ou ao desapego religioso que os alunos já trazem de casa.

Lá atrás, observando tantas nuances envolvendo o Natal, também caí na incômoda sensação de que me distanciei do propalado “espírito natalino”, igualmente incorrendo na errônea mentalidade capitalista: sem recursos financeiros, não há incentivo para adentrar no ritmo de Natal.

Daí minha resposta  usual, quando alguém me pergunta quais são meus planos para este Natal:

– Nenhum plano. Vou ficar em casa e comer qualquer coisa por lá. Será mais um dia comum…

Mal sei eu que o Natal sempre existiu dentro de nós; mas é preciso procurá-lo no âmago isolado das descrenças humanas. É a única forma de resgatar a fé que jamais sucumbiu ao desmonte dessa essência maravilhosa, de caráter divino.

Por JC, jornalista Mtb 381.18-MT

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